Em meio à busca global pelo cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), um novo desafio surge com força: a redução expressiva dos aportes financeiros oferecidos por países desenvolvidos para as nações em desenvolvimento. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), faltam cerca de US$ 4 trilhões anualmente para que os ODS sejam plenamente financiados, cenário agravado após recentes decisões políticas e econômicas dos países mais ricos do planeta.
Queda histórica no financiamento internacional
Dados divulgados em estudo do Brics Policy Center da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) confirmam que, em 2025, as contribuições à assistência oficial ao desenvolvimento, feitas pelos países membros do Comitê de Assistência ao Desenvolvimento da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), caíram 23,1% – a maior retração já registrada. O valor destinado passou de US$ 215,1 bilhões em 2024 para US$ 174,3 bilhões em 2025.
O papel dos Estados Unidos é determinante: o país reduziu sua contribuição em impressionantes 56,9%, respondendo sozinho por três quartos da retração global. Junto a Alemanha, Reino Unido, Japão e França, os EUA foram responsáveis por 95,7% da queda na assistência, afetando diretamente regiões de grande vulnerabilidade como a África Subsaariana.
Impactos da redução de ajuda humanitária
Os reflexos desses cortes são concretos na vida de milhões de pessoas. Só na África Subsaariana, o envio de recursos caiu 26,3% em 2025. A queda na ajuda humanitária foi ainda maior, chegando a 35,8% no mesmo período. Esses fundos financiam áreas cruciais como vacinação, alimentação, saneamento básico, educação, proteção de refugiados e adaptação climática — temas sensíveis que, segundo o estudo, dificilmente atraem o capital privado devido à baixa lucratividade.
A diminuição dos aportes ocorre justamente quando aumentam as restrições migratórias por parte dos países que agora cortam recursos – um paradoxo que reforça as desigualdades globais e dificulta a solução estrutural de pobreza, fome e crises ambientais.
Compromissos assumidos e realidade dos aportes
A Agenda de Ação de Adis Abeba, estabelecida em 2015, reafirmou o compromisso dos países desenvolvidos em destinar 0,7% da renda nacional bruta para a assistência internacional. No entanto, em 2025, o índice efetivo não ultrapassou 0,26% – bem distante da promessa original, ilustrando uma lacuna significativa entre a retórica e a prática.
Há um aspecto histórico importante nessa discussão: parte da riqueza acumulada das grandes potências foi construída durante séculos de colonialismo, exploração e desigualdade, cujos efeitos permanecem visíveis nas atuais situações de endividamento e crise dos países em desenvolvimento.
Brasil e o futuro da cooperação internacional
O estudo do Brics Policy Center, além de evidenciar os desafios da assistência tradicional governamental, alerta para o risco da financeirização crescente do desenvolvimento via interesses privados. Financiamentos privados buscam retorno financeiro e raramente investem em pautas como erradicação da fome, saúde pública e proteção social.
Para o Brasil, país que integra fóruns internacionais e tem papel de destaque nos debates globais sobre desenvolvimento, acompanhar e pressionar pela retomada desses compromissos é fundamental. Afinal, a solidariedade internacional não é apenas uma exceção à regra – é o alicerce de uma agenda sustentável e mais justa.
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