Arnor da Cruz Conceição, 78 anos, é um retrato das incertezas políticas de parte dos eleitores idosos no Brasil. Barqueiro de Paraty, no litoral sul do Rio de Janeiro, ele alterna sua rotina entre passeios turísticos e a dependência de um benefício do governo federal, refletindo as contradições e os dilemas de quem, mesmo após uma vida inteira acompanhando as mudanças do país, segue indeciso sobre em quem votar nas próximas eleições.
Vidas entre o mar e o turismo
Natural das comunidades caiçaras de Paraty, Arnor se orgulha de sua trajetória como "trabalhador do mar" desde os 12 anos de idade. Se antes a pesca era o sustento principal, hoje é o turismo que garante a renda de sua família. "Aqui o forte era a pesca e o turismo, mas o turismo venceu a pesca; ficou mais forte para nós", comenta ele, que realiza passeios de barco para turistas, cobrando R$ 150 por hora quando há movimento. No entanto, em períodos de baixa temporada, pode ficar até três dias sem cliente, recorrendo, então, ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), pago a idosos de baixa renda pelo governo federal.
A importância das eleições municipais e as dúvidas sobre o voto
Para Arnor, as eleições municipais tem impacto mais direto na vida dos paratienses, pois mexem no dia a dia da cidade. Apesar disso, não votou no último pleito, citando cansaço após um dia de trabalho. Quando participa, escolhe candidatos mais conservadores, por acreditar que "as coisas vão melhorar com a direita". Arnor revela nunca ter votado em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e mantém dúvidas sobre apoios atuais, inclusive quanto ao nome de Flávio Bolsonaro (PL). Sobre a obrigatoriedade do voto para maiores de 70 anos, ressalta que o comparecimento é uma decisão espontânea: "É assim coisa de repente, né? Se me der vontade, eu vou votar".
Famílias, gerações e aspirações
A família de Arnor também segue envolvida no mar: seu filho opera uma lancha para turistas. Porém, observa que os netos não querem seguir no ofício marítimo, preferindo carreiras como medicina e advocacia. Para ele, a educação é fator determinante para a transformação social: "É tudo pelo governo, né? Então, quer dizer, já é uma função do governo". No entanto, reconhece a dedicação das professoras locais como peça-chave para qualidade do ensino nas comunidades caiçaras.
Impacto econômico e expectativas políticas
O barqueiro observa com preocupação o aumento do preço do diesel, combustível vital para seu trabalho, citando tanto os efeitos locais da inflação quanto decisões externas, como o tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. Arnor acredita que o governo federal tem papel importante na resolução dessas questões, e pondera: "a gestão Lula até que está lidando bem com a crise com os americanos". Apesar da experiência de vida, Arnor diz não ter certeza sobre votar ou não nas próximas eleições, ilustrando uma tendência vista em outros idosos, já que o voto é facultativo para quem tem mais de 70.
Sua insegurança eleitoral é sintoma de um eleitorado amadurecido, que acompanha notícias pela televisão e redes sociais, mas que se sente frequentemente distante das grandes decisões políticas. Casos como o dele ajudam a entender as múltiplas realidades do voto no Brasil e a importância de políticas públicas voltadas para a terceira idade.
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